Dias frios de outono

O despertador tocou às 7h da manhã e, como faço todos os dias, dei um único e automático toque na tela para ganhar mais alguns minutos de sono. Quando finalmente levantei, nem notei que a janela que estava entre aberta na noite anterior, agora, encontrava-se fechada e coberta até quase a metade com gotas de chuva. Já no carro, mais desperto, o céu meio acinzentado era prenúncio de um dia agradável que antecipava o outono, marcado para começar dentro de poucos dias. O dia se manteve assim, garoas esporádicas e rápidas, um frio agradável e algumas nuvens que impediam que a luz do sol chegasse de forma tão intensa ao chão molhado. Na hora do almoço, a paisagem que via da janela ganhou contornos acolhedores com o vento que me acompanhou durante a caminhada até em casa.

Os dias transcorriam com a mesma rotina de sempre, dividida entre trabalho, faculdade, namorada e família, mas durante quase uma semana o clima inesperado trazia à minha mente uma ideia constante de adaptação. Aqueles dias frios, chuvosos e com muitos ventos eram uma referência direta a tudo o que eu tinha lido em muitas páginas e blogs sobre o clima dublinense. Os mais místicos podem entender isso como um presságio da viagem que está cada vez mais perto de se concretizar, para mim, o clima outonal vinha acompanhado de um único desejo: “se mantenha assim pelos próximos cinco meses”.

Ontem levantei 45 minutos antes do outono começar de forma oficial. O céu fechado e a temperatura baixa continuavam presentes do lado de fora da janela, que nessa manhã permanecia aberta, como deixada na noite anterior, já que a chuva tinha dado uma pausa ao longo da madrugada, mas o anúncio da nova estação na TV veio contrastar com o que eu via lá fora e com o que eu tanto desejei durante toda semana que se passou: “o outono deve ter temperaturas um pouco mais altas que o normal”, anunciava a jornalista.

Autumn in Dublin

Outono no St. Stephen’s Green Park em Dublin (Crédito: http://bit.ly/gz4zAl)

Hoje, na primeira manhã completa da nova estação, escrevo esse texto conformado que a informação recebida na manhã anterior não devia ser mais um erro. As ruas já estão secas, mesmo com a forte tempestade que caiu a noite toda, as nuvens que ainda ocupam o céu, não são capazes de deter os raios de sol e os termômetros são dispensáveis para quem quer constatar que o frio está indo embora, a pele basta. O conforto que me resta é saber que, em poucos meses, devo ser recebido na Ilha Esmeralda por um clima muito semelhante ao que me acompanhou nesses últimos dias.

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 Esse novo post, que volta a mexer nas águas paradas deste blog após mais de uma semana, vem acompanhado e inspirado em uma boa notícia: finalmente eu fechei o intercâmbio! E tudo saiu melhor que o planejado, após receber um orçamento inesperado e negociar muito com o pessoal da BFA, consegui fechar com uma das melhores escolas de Dublin, a CES, e com um preço um pouco acima do meu orçamento inicial. Agora, é correr atrás dos outros detalhes, como passagem, dinheiro, malas, passaporte – que já está pronto, só preciso ir pegar – e, o mais importante, me formar!

Nesse meio tempo, vou tentar ser mais regular nas publicações, mas os trabalhos da faculdade (caracterizados essa semana pela produção de um curta metragem escrito, gravado e editado em menos de 15 dias) e a falta de inspiração (ideias até vieram e textos começaram a ser escritos, mas não ficaram agradáveis e foram deixados de lado momentaneamente) acabaram por consumir boa parte do tempo.

O leitor de Nietzsche

Sei que o nome desse blog induz à outra ideia, mas para movimentá-lo mais e dar uma outra visibilidade para alguns dos textos com os quais incomodo tanto aqueles que têm minhas atualizações em sua timeline do Facebook, vou publicar alguns textos pequenos (ou nem tão pequenos assim) aqui. Normalmente são pensamentos, pequenos contos, anedotas sem graça e até alguns poemas que não devem fugir muito do perfil – ou projeto de – literário desse blog. Então, chega de explicações e boa leitura.

Avançando com um andar apressado e nervoso, Michael agitava um livro de Nietzsche na mão esquerda e falava alto para mim: – Nietzsche diz que a saúde do corpo está ligada à saúde da alma! Por isso eu vou à academia e tomo suplementos, só com um corpo saudável terei uma mente saudável!
Enquanto Michael discursava e o vento forte daquele fim de tarde permitia ver seus músculos igualmente definidos – sinal de que nunca foi exigido mais de um músculo do que de outro; eu, com meu porte corpulento, marcado por uma barriga adquirida com algumas cervejas, muita carne e certo desleixo, pensava: “Pobre Nietzsche com seus leitores platônicos que buscam em frente ao espelho e dos livros a luz para a verdade eterna”.

Caminhando

“No começo, era o pé”. Essa frase, mal explicada e atribuída ao antropólogo Marvin Harris, tem muito a ver com esse blog. Foi com os pés que dominamos os rumos de nossos caminhos, expandimos os horizontes, saímos do lugar. Pé ante pé, um após o outro, um ato mais simples e belo que o subir das escadas descrito por Cortázar, em um simples e sereno caminhar. Rompendo com seu significado disciplinador – de manter uma vida saudável –, o caminhar permite dominarmos o mundo que nos rodeia; é a oportunidade de nos deparamos com a singularidade daquele universal que nos constrói; os hábitos, costumes e o ambiente estão todos ali, singularizado, em um recorte na atmosfera dispersa e homogênea que nos circunda e conduz.

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Ao caminhar retomamos o ritmo de nossas próprias vidas (Crédito: Thomas Schaller)

Talvez por levar-nos ao encontro dessa singularidade, o caminhar seja uma ação tão desafiadora à sociedade e a nós mesmos. Andando entre ruas desconhecidas, com ou sem rumo certo, em meio a prédios e pessoas que nunca notamos e em uma velocidade suficientemente lenta para apreciarmos cada detalhe: uma parede descascada, um pequeno jardim abandonado, o ninho escondido entre os galhos de uma árvore, um sorriso natural deixado no ar ou um leve cumprimento de cabeça. Caminhando tomamos de volta o ritmo de nossas vidas e saímos do processo alienante do cotidiano e rotineiro esquema carro-trabalho-carro-casa-sofá.

Nietzsche disse “não ter fé em qualquer pensamento que não tenha surgido ao ar livre e em plena liberdade de movimento – em que também os músculos não celebrem uma festa”. Ficar sentado, onde quer que seja, é um atentado ao pensamento. E isso eu sei por experiência própria, basta lembrar de meus anos caminhante e, posteriormente, motorizados. Preso ao carro, ironicamente tão móvel, nossa relação com o mundo muda, nos distanciamos dele, fazemos daquilo que nos envolve um outro, os hábitos, costumes e ambiente que nos trouxe até aqui se perde, não somos mais nós mesmos, somos só parte da homogeneidade cotidiana.

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 É caminhando que dou início hoje à busca por novos mundos, para dominá-los sob meus pés, para trazer novos pensamentos e conhecimentos sobre o mundo e, principalmente, sobre mim.

“No começo, era o pé”. E o começo desse blog é com os pés no chão, de quem deixou o conforto e praticidade de um carro próprio para por os pés no chão em busca de um intercâmbio e de si.